domingo, 21 de outubro de 2012

Comer cerejas e outros frutos vermelhos



Paro o carro no largo à beira da estrada. Compro um saco de cerejas de Alfândega da Fé. Percorro mais alguns Quilómetros. Deparo-me com uma paisagem de verde e vermelho da terra quente. Provo as cerejas frescas. O sabor doce das cerejas mistura-se caprichoso envolvendo a saliva murcha da minha boca seca. Uma invasão desejada de vermelho na saliva, na garganta, no estômago e mais tarde nos intestinos.

O Sol deita-se descansando sobre as montanhas vestidas de primavera. A montanha submissa perante a cresta precoce parece expandir-se. Como cerejas deleitando-me com a paisagem montanhosa. Atiro com os caroços pela janela do carro, cuspindo-os com violência sobre a terra alaranjada num desperdício de fecundidade. Os caroços das cerejas como o nó que trago na garganta vermelha. Como as palavras que nunca te direi numa expulsão de sentimentos reprimidos. Os caroços como duas nuvens de fumo pelos olhos dentro embaciando a visão de ardor. Os olhos vermelhos de ardor.

Cego imagino-te vestida de um nu vermelho. O vermelho dos frutos que te abraçam e envolvem tornando-te cada vez mais doce e humanamente irresistível. É neste momento que me levas sem pedir perdão num orgulho que não cede o seu lugar à tentação prometida. Sem hesitar. Aproximas-te devagar num passo seguro. Tocas-me e logo me tinges de vermelho.

Largo esta aparição de ti, envolvida em frutos vermelhos e sigo viagem. No céu o Sol permanece dominador, fertilizador, germinando as terras outrora impenetráveis do gelo invernal. A terra velha aceita os raios luminosos como bênçãos, saciada que está da sede do verão passado. Também tu mulher de vermelho me fazes corar nesta alucinação de ti. Confundes-me, ofuscas-me mas aceito esta condição que me sufoca e sara. As feridas de sangue coagulado cicatrizam finalmente libertando-se do leito necrosado.

Já é por do Sol, intenso, misterioso despedindo-se de um dia brilhante que se apaga enquanto a lua se pendura no topo do mundo, onde deve estar. O Sol muito distante dá tréguas ao chão enjoado de calor. Num só dia torna-se seco à superfície. Sigo de novo numa estrada mais estreita. O caminho faz-se agora numa estrada mais estreita da povoação. Fico mais perto do lugar onde outrora caminhas-te descalça sobre o chão. Nesse lugar onde comi as melhores cerejas da minha vida.

Juan Perez Gonzalez,

Maia, Porto,

22 de Outubro de 2012